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28 setembro 2010

Cervejaria Ritter 1 - Cervejaria Georg Heinrich Ritter


Para escrever sobre as cervejarias gaúchas precursoras da Cervejaria Continental é necessário que se faça de maneira a não deixar dúvidas, às vezes é necessário se escrever muito mais sobre a pessoa ou a família do que sobre cerveja e a cervejaria para não perder o fio da meada, A história dessas cervejarias e seus donos cervejeiros é complexa e envolve, inclusive, várias famílias e cervejeiros, tais como Ritter, Becker, Sassen, Bopp, Haerthel, Klinger, etc. e se entrelaçam de tal forma que é impossível falar da história de uma sem citar a outra ou outras, elas de uma forma ou de outra foram precursoras da cerveja gaúcha e terminaram por formar conjuntamente a Cervejaria Continental.

Nossa história começa em 1846 quando chega ao solo gaúcho o casal Ritter: Johann Heinrich Ritter II e Caroline Juliane Roth, que emigrou da Alemanha para o Brasil com seis filhos em 1846, originários da Aldeia de Kempfeld e arredores, situados no quadrilátero formado pelos rios Reno, Mosela, Sarre e Nahe, zona conhecida como Hunsrück. Dois filhos do casal imigrante, Philipp Ritter, casado com Catharina Kurtz e Karl Ritter, casado com Maria Elisabetha Schreiner, se mudaram para São Lourenço do Sul, na região sul do Estado, se dedicando à agricultura e a produção de cerveja.

Na região de Linha Nova, na época uma colônia (Picada Nova) que pertenceu inicialmente a São Leopoldo, depois a São Sebastião do Caí; mais tarde fez parte de Feliz e hoje é sede de município que integra o Vale do Caí, ficou um agricultor de 24 anos, nascido em 10 de março de 1822 em Kempfeld/Hunsrück, de nome Georg Heinrich Ritter e que durante a viagem de navio conheceu sua primeira esposa, Elisabeth Fuchs, nascida em 19 de janeiro de 1827 em Niederlinxweiler, Alemanha e que emigrava com seus pais e irmãos no mesmo navio.



Georg Heinrich Ritter, foi o indiscutível pioneiro da cervejaria do sul brasileiro, seus filhos e genros ampliaram o negócio e abriram cervejarias pelo estado do Rio Grande do Sul. Era oriundo da antiga Prússia tendo claros traços de personalidade germânica, austero e sincero, um ícone na sociedade de então, sendo temente a Deus e um esteio da comunidade luterana de Linha Nova tornou-se o patriarca de uma família que se destacaria na produção de cerveja no final do século XIX e início do século XX. Inicialmente, Georg dedicou-se à agricultura e, em algum tempo, abriu a primeira casa de comércio de Linha Nova, atendia às necessidades da população local comprando os produtos rurais dos colonos e vendendo mercadorias de primeira necessidade.

Em 1864, Georg Heinrich Ritter já era um homem muito próspero nos seus negócios e construiu um grande casarão que foi um dos primeiros da localidade e que até hoje existe, na cidade de Linha Nova, tendo sido reformado recentemente pela Prefeitura do Município. Ali funcionava a venda e um salão de bailes no andar térreo e a residência da família (especialmente os dormitórios), no andar superior.




Uma curiosidade, em 1868 veio o Pastor Heinrich Wilhelm Hunsche, diretamente da Alemanha para cá. Ele tinha que atender Linha Nova, Nova Petrópolis e São José do Hortêncio. No início ele morava em S.J. do Hortêncio. No ano seguinte, em 1869, o Pastor Hunsche achou melhor mudar-se para Linha Nova, no meio do caminho entre Nova Petrópolis e S.J. Hortêncio e como não tinha onde morar foi acolhido como hóspede ilustre na casa de Georg Heinrich Ritter, onde ficou morando por três anos, isto é até o ano de 1872. A escolha do Pastor Hunsche de ir morar em Linha Nova, por motivos óbvios, foi influenciada por Georg Heinrich Ritter, líder local, tesoureiro e Presidente da Comunidade Evangélica de Linha Nova.

E foi exatamente no porão do casarão, em 1868, que começou a funcionar a primeira cervejaria do Estado do Rio Grande do Sul criada pelo próprio Georg Heinrich Ritter que tinha várias habilidades, porém a mais notável era o conhecimento em fabricação de cerveja, pois aprendera as técnicas da profissão ainda jovem na Alsácia-Lorena, com seu tio materno Roth, que lá residia. Seguiu a Lei da Pureza, em vigor na Alemanha desde 1516: malte de cevada, lúpulo, fermento cervejeiro e água limpa, a cerveja Ritter fez muito sucesso. Nas primeiras décadas após a colonização era bastante comum ocorrerem reuniões de amigos, especialmente para os festejos dos Kerb (festa do padroeiro). E todas as novidades eram motivos de comentário e festa e assim os imigrantes, com grande euforia, comemoraram a implantação da pequena indústria familiar dos Ritter em Linha Nova.

Do primeiro casamento com Elisabeth Fuchs, tiveram nove filhos: Henrique, Carolina, Elizabeth, Carlos, Filipina, Jacó, Guilhermina, Catarina e Henriqueta. Sua esposa faleceu em 21 de junho de 1868, um ano após em 1869, Georg, tornou a casar-se com Maria Margaretha Konrad Ritter, cunhada e viúva de seu irmão Friedrich Georg Ritter, que tivera cinco filhos com o primeiro marido: Maria Christina, Elisabeth, Frederico Jacó, Susana Maria e Catharina, que faleceu aos seis anos de idade. Com esse segundo casamento nasceram mais dois: Phillip e Gustav, formando um grupo de quinze crianças e jovens na casa.

Em 1883, movido pela esperança na participação em uma fabulosa herança a que os componentes da família Fuchs (sua primeira esposa) teriam direito e pela saudade da pátria Georg Heinrich decidiu aos 61 anos voltar à Alemanha, com sua segunda esposa e seus quatro filhos ainda solteiros, passando a residir em Darmstadt. Mas a saudade de sua nova pátria, Brasil, foi maior que aquela da velha Alemanha e nem a esperança de uma futura herança conseguiu impedir que ele voltasse em menos de um ano depois de ter saído "de casa".

Em 13 de março de 1889, 3 dias após completar 67 anos, Georg Heinrich Ritter veio a falecer.

Guilherme Becker / Bernardo Sassen / B. Sassen & Filhos


Outra cervejaria precursora da Cervejaria Continental foi a cervejaria de Guilherme Becker, alemão que emigrou para o Brasil em 1869.



Na Alemanha onde nasceu ele havia trabalhado como polidor de ágata e pedras semi-preciosas, nos primeiros tempos no Brasil, trabalhou no calçamento da rua Cristóvão Colombo, em Porto Alegre.

Ainda solteiro, Guilherme transferiu-se para a Linha Nova para trabalhar na fábrica de cerveja de Georg Heinrich Ritter, com quem aprendeu o ofício de cervejeiro.

Em 9 de fevereiro de 1878 casou-se com Elisabeth Ritter e recebeu o incentivo do tio e padrasto de sua esposa, tido como sogro, para construir a residência da família e instalar a fábrica de cerveja em um terreno localizado no bairro Floresta, em Porto Alegre.

Guilherme Becker conseguiu instalar sua cervejaria, em Porto Alegre, no início do ano de 1879.

Do casamento, com 11 anos de duração, de Guilherme e Elisabeth nasceram quatro filhos:

Helma, que perdeu a vida com 7 anos de idade, Lydia, Guilherme e Olga. Esta última, mais tarde, casaria com o primo em segundo grau Frederico Augusto, filho de Henrique Ritter, com o qual convivera desde a infância.

Em 1881, sua cerveja recebeu medalha de ouro na Exposição Brasileira-Alemã, em Berlim, distinção que não foi concedida a nenhuma outra marca de cerveja.



Em 1887 registra a cerveja preta, marca Porco.



As atividades insalubres a que se dedicou durante a juventude causaram-lhe uma moléstia nos pulmões, denominada silicose, produzida pela inalação de pó de pedra ou de areia. Apesar de ter procurado cura na Alemanha, veio a falecer aos 39 anos, no dia 4 de junho de 1889, em Porto Alegre.

Quando de sua morte o capital da cervejaria era de 600:000$000 (seiscentos contos de réis) e as vendas anuais dos seus produtos sobem a mais de 300:000$000 (trezentos contos de réis). A cervejaria, que se acha superiormente instalada, pode fabricar até 3.000 hectolitros de diversas qualidades, como sejam Becker, Colombiana e Becker Bock, todas elas engarrafadas no estabelecimento. O maquinismo, acionado por um motor de 150 hp, representa o que há de moderno e aperfeiçoado. Para o transporte das mercadorias, dispõe a fábrica de 5 carros e vagões e 30 cavalos e mulas. Nos seus diversos serviços, trabalham 30 pessoas. Os seus produtos são vendidos pelo interior do estado.

Henrique Ritter decidiu administrar e trabalhar nessa empresa no período da enfermidade de Guilherme e, posteriormente, durante a viuvez da prima Elisabeth Ritter Becker. Desse modo, administrou os negócios da prima-irmã e somente se afastou quando sua prima-irmã, Elisabetha Catharina Ritter (Elisabeth Ritter Becker) decidiu casar-se novamente algum tempo depois, aos 33 anos. A união com Bernhard Oswald Sassen (Bernardo Sassen) ocorreu no dia 7 de outubro de 1890. O noivo, com 38 anos, era um alemão que havia emigrado para o Brasil em 1870 e fora amigo do falecido marido de sua nova esposa.

Bernardo Sassen, nasceu em 1852, na Alemanha, onde fez os seus estudos e adquiriu prática comercial. Veio para Porto Alegre em 1869 e aqui iniciou negócios por conta própria. Assim, passou a administrar a cervejaria Becker.



Henrique, por sua vez, com toda a sua experiência tomou a decisão de continuar no ofício de cervejeiro e realizou o projeto de criação de sua própria cervejaria.

No dia 9 de fevereiro de 1909 o jornal Correio do Povo noticiava na seção "Diversas":
"...Cervejaria Becker - Chegou a esta capital, com procedencia de Munich na Allemanha, o engenheiro Fritz Mack, que vem armar as novas machinas da Cervejaria Becker, do sr. Bernardo Sassen, á rua Christovão Colombo..."

Em 28 de março de 1910, 0 jornal A Federação publicava um anúncio onde a cervejaria anunciava o fim de sua reforma


No dia 26 de setembro de 1919, o jornal A Federação publica o requerimento junto à Junta Comercial de Porto Alegre do arquivamento do contrato social realizado entre Bernardo Sassen, Bernardo Sassen Júnior e Guilherme Becker (filho) com o capital de 1,750:000$000.



Em 21 denovembro de 1917, o jornal A Federação publica que na sessão de 25 de outubro da Junta Comercial do Estado do Rio Grande do Sul foi feito o registro da marca Cerveja Porco sob o número 3351.



Em 3 de novembro de 1922, o jornal A Federação publica a sentença do Juiz Paulino Coelho da 1ª vara da capital, sentença confirmada pelo Supremo Tribunal do Estado, tornando nulo o registro da marca Cerveja Porco por se tratar de imitação da cerveja Porco fabricada na Inglaterra e registrada na Junta Comercial do estado e renovada várias vezes ao longo dos anos.



Ainda na década de 1920, a cervejaria de Bernardo Sassen e Filhos (sucessores de Guilherme Becker e Bernardo Sassen) passou a fazer parte do Consórcio Continental, formado em julho de 1924 quando as firmas Bopp Irmãos (sucessores de Carlos Bopp), Henrique Ritter e Filhos (sucessores de Henrique Ritter) fundiram-se sob a razão social Bopp, Sassen e Ritter e Cia. Ltda. Surgiu assim um novo estabelecimento comercial, denominado Cervejaria Continental, que se instalou na rua Cristóvão Colombo, 625.