sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cervejaria Esperança / Cini / Hugo Cini S.A.





A vida no Brasil não começou como o imigrante italiano Ezígio Cini imaginava. Proveniente da região do Veneto, ele aportou em território brasileiro no fim do século 19 com o objetivo de se instalar em terras doadas pelo imperador Dom Pedro II e acabou se estabelecendo na Colônia Cecília, no município de Palmeiras a três léguas de Santa Bárbara, no Estado do Paraná, com a intenção de construir um núcleo de acordo com a sua ideologia, para fins políticos de demonstração.

Conviviam numa associação de caráter libertário, na tentativa de seguir os princípios anarquistas, funcionando como uma comuna livre e independente. Tudo pertencia às associações, e as terras seriam dos que as cultivassem, prevalecendo a liberdade através da igualdade política, econômica e social.

Na colônia, Ezígio Cini casou-se com a filha de um colega de movimento, Aldina Benedetti, irmã de Evangelista Benedetti e Catarina Benedetti, todos de uma família pioneira que se instalaram inicialmente no núcleo da colônia. Então, Ezígio Cini e Aldina Benedetti Cini construíram um moinho de fubá e já em 1º de outubro de 1891 nasceu o primogênito do casal, o Hugo Cini.

Nessa adaptação ideológica, Ezígio Cini era considerado um intelectual que defendia seus ideais, através de um jornal o qual foi fundado em 1899 em Curitiba e era dirigido por ele, o II Diritto Libertário, inclinado para a divulgação anarquista, e que possivelmente teria influenciado a classe operária curitibana, pois nas suas páginas dirigia um “Apelo” aos operários: "Todos aqueles que receberem maus tratos dos assim chamados patrões, são convidados a informar esta administração afim de que pelas colunas deste jornal possa valer os direitos dos disfructados contra os disfructadores".

O jornal estampava um subtítulo: “Periódico comunista – anarchico”, com o seguinte endereço: Rua Silva Jardim, nº 60. Vários nomes cecilianos figuravam entre os colaboradores. (Informações da Biblioteca Pública do Paraná).

Com o advento da República, a decadência da Colônia Cecília deu-se rapidamente, em virtude da dívida colonial. Por causa da amizade de Ezígio Cini com um liberal antiflorianista, o qual ficou abrigado em sua casa por vários dias, foi obrigado a fugir para o Município de Lapa onde ficou escondido em um poço e posteriormente foi preso durante 40 dias. Sua mulher e filhos ficaram alojados em casa de amigos, em Palmeiras.

Já no ano de 1904, Ezígio Cini associa-se a Carlos Chelli, também ex-integrante da Colônia Cecília para iniciar um pequeno negócio dedicado à produção de bebidas alcoólicas. Posteriormente, em um terreno arrendado no Município de São José dos Pinhais, fundou a Cervejaria Esperança. Da linha de produção da nova empresa saíam uma água carbonatada e algumas bebidas alcoólicas, como Fernet e duas cervejas - uma clara e outra escura, chamada Águia. A águia era uma cerveja artesanal, cujo processo de fabricação incluía a fermentação na própria garrafa.

Com a morte de Ezígio Cini, sua mulher Aldina, assumiu a posição na sociedade com Chelli, onde naquela época já podia contar com a ajuda do filho mais velho, Hugo.

Não existindo mais interesse em dar continuidade na empresa o sócio Chelli vendeu sua parte na sociedade para Hugo Cini que assume as diretrizes da indústria, comprando também a parte de sua mãe e de seus irmãos, já demonstrando desde cedo seu espírito de liderança e de homem de negócios.

Os meios de produção eram: uma máquina manual movida a pedal, um tanque para a lavagem das garrafas e tonéis de carvalho para a cerveja. A matéria-prima provinha da Tchecoslováquia, em caixas lacradas com zinco, para evitar a passagem de umidade, indo para o moinho, e depois para a fermentação, sendo o lúpulo também vindo do estrangeiro. A fermentação levava de 25 a 30 dias e, para evitar o azedume provocado pelo resfriamento, quando do acondicionamento nas pipas, o empregado encarregado pelo serviço chegava a fazer serão.

Enquanto a fábrica se desenvolvia a todo vapor em São José dos Pinhais, foi construído um depósito em Curitiba num terreno recebido de herança, o objetivo do depósito era de ampliar o número de consumidores e melhor atendê-los. Os resultados foram tão positivos que este depósito logo foi transformado em fábrica, sendo transferida a capacidade produtiva da unidade de São José dos Pinhais toda para Curitiba. Os resultados, aliás, foram tão satisfatórios que a indústria, embora mantivesse suas características tipicamente domésticas e de capital fechado, contando inclusive com a colaboração dos demais membros da família, lhes permitiu sobreviver sem grandes sustos à grave crise internacional de 1929/1930.

Com a transferência definitiva de São José dos Pinhais para Curitiba, a fábrica de gasosa que funcionava de forma acanhada. Teve suas instalações ampliadas significativamente, visto que antes operava em um único barracão, com apenas duas máquinas uma para a preparação da gasosa e outra utilizada para a lavagem das garrafas.

A instalação da empresa Hugo Cini e Cia., em Curitiba, foi registrada em 4 de março de 1928.




Em 1945, a empresa teve sua razão social transformada para Hugo Cini e Filhos Ltda., tendo a participação da esposa de Hugo Cini, Amélia Gobbo Cini, e de seus filhos Carlos Ezígio, Carolina Isolina, Aldina, Orlando, Espérdie, Nilo e Ginete, estando sempre à frente dos negócios o “Velho Hugo”, como era chamado.



A produção artesanal prevalecia e utilizava-se praticamente a mão-de-obra familiar. As pessoas iam se casando e colocando os filhos para trabalhar na fábrica. Apenas dois empregados no quadro funcional da empresa não pertenciam à família Cini: um vendedor e um atendente para serviços gerais.




Nos primórdios as vendas eram realizadas por carroças que saiam carregadas com cerca de 60 dúzias, no começo da semana, levando capilé, aguardente, gasosa e cerveja. Como o processo para a fabricação das cervejas era muito caro, a fábrica parou de produzi-las na Segunda Guerra Mundial. Ainda na década de 40, a Família Cini fabricava a famosa “colinha”, refrigerante de 190 ml, com gosto de cola, mas puxado para malte.

Parte do maquinário de Curitiba (da marca Dickes) foi importado da Alemanha para a produção da gasosa. Outras máquinas necessárias para o processo produtivo foram adquiridas no mercado brasileiro. Por iniciativa de um dos filhos de Hugo, Orlando Cini, o químico encarregado da fórmula foi trazido da Europa. A obtenção desses novos meios de produção deu-se pela realização de um financiamento. Para se ter uma idéia a máquina Dickes levou oito dias pra vir do Porto de Paranaguá até Curitiba. E o frete do maquinário foi pago em dobro pela dificuldade envolvida no transporte do equipamento.

A preparação da gasosa era feita especialmente por Hugo Cini. O produto era elaborado manualmente. As essências procediam da Alemanha, nos sabores framboesa, limão, abacaxi, gengibre e o procaroli especial, caramelo que vinha em uma barrica de 200 litros e que dava cor à cerveja, ainda que matérias-primas importadas resultassem em um produto de baixo custo.

No inicio, não havia horas fixas de trabalho. No carnaval e em dias festivos as bebidas eram engarrafadas a noite inteira para conseguirem durante o dia seguinte servir às imediações de São José dos Pinhais, Campo Largo e Santa Felicidade.

A partir de uma indústria doméstica e de capital fechado, Hugo Cini administrava a fábrica, tendo o apelido de “gritalhão” por sua energia e pelo seu caráter pessoal, já que a maioria dos empregados era constituída por membros da família.

A gasosa não sofria grande concorrência, e por ter uma boa aceitação no mercado de Curitiba e região. Tomou grande impulso após a guerra, com o aperfeiçoamento gradativo da produção, e com a boa administração do capital conseguido através de seu empresário.

Com o crescimento constante da empresa, em maio de 1963 a CINI foi transformada em Sociedade Anônima sob a designação de Hugo Cini S.A. – Indústria de Bebidas e Conexos. Já então considerada como uma das expressões da indústria paranaense impunha-se sempre pela alta qualidade de seus produtos, conhecidos além das fronteiras do Estado.



Foi nesta década, mesmo com uma promoção com o refrigerante “colinha” (oferta de prêmios dentro da tampinha de cortiça), a fábrica parou de produzir o produto devido à grande concorrência de outra “cola”. Já as gasosas não sofreram com a concorrência por já terem conquistado um público fiel, principalmente a conhecidíssima “Gengibirra”, que continuava satisfazendo aos mais exigentes paladares.




Tudo isso porque Orlando Cini, que a partir do falecimento do seu pai, em 1970, passou a ocupar o cargo de diretor presidente da empresa, e manteve absolutamente o mesmo cuidado nos critérios de qualidade e de sabor.

Além disso, Hugo Cini, durante toda a sua existência, nunca esqueceu de atuar na vida social e comunitária. Junto à sua árdua e competitiva administração das atividades empresariais, ainda reservava tempo para ser membro atuante de várias sociedades beneficentes e recreativas, sempre se dedicando como um dos mais antigos e apaixonados turistas paranaenses, investindo no progresso do Jockey Club do Paraná, onde era sócio acionista, diretor, criador e proprietário de cavalos de corrida de alta linhagem e inúmeros parelheiros famosos, legando aos seus familiares descendentes a mesma paixão pelo turfe.

Nesse contexto, Hugo Cini foi um empresário inovador em seu campo de atuação. Exemplo de homem de negócios, de líder inconteste, de capacidade e honradez e seu comportamento, muitas vezes egocêntrico e centralizador, provou que a administração familiar não é estática organizacionalmente, pois seus filhos, genros e netos foram treinados para o exercício da liderança industrial.

A herança de grande empreendedor de Hugo Cini foi transmitida a Orlando Cini que desde criança, passava incontáveis horas dentro da fábrica, assumindo a presidência da empresa em 1970. Foi um líder de nascença, pois não teve noções especializadas de liderança, tendo se espelhado em seu pai, Hugo Cini, e em seu avô, Ezígio Cini, fundador da Cini, transmitindo confiança para s seus liderados. Com seu espírito empreendedor, o conhecimento detalhado de cada área da empresa, sua força e alma realizadora que teve durante toda sua vida, tomavam decisões que, mesmo sendo em longo prazo, sempre tinha certeza de que o mercado iria se movimentar nos passos seguintes.

Orlando sempre foi ousado e muito seguro de seus objetivos, investiu muito na empresa. Comprou novos maquinários, aperfeiçoou o capital humano dos seus colaboradores, desenvolveu novos sabores e categorias de produto, como a linha diet. Mas com o crescimento do segmento e da empresa, surgiu a necessidade de profissionalizar a administração da empresa e essa foi colocada nas mãos de consultores externos, não pertencentes à família Cini. Os descendentes da família Cini passaram a ocupar posições mais de planejamento, tomando cadeiras dentro do Conselho Deliberativo da Empresa, do qual continuavam a tomar as decisões mais importantes da empresa só que em um nível mais estratégico.

Em 1996, a sede da indústria em Curitiba já não atendia às suas necessidades fabris, tanto em relação à produção quanto à logística de distribuição, pois estava localizada na região central da cidade. Houve então a necessidade de uma nova mudança, e o local escolhido foi o município de Pinhais, região metropolitana de Curitiba, onde a indústria passaria a dispor de uma área de 10.000m², sendo 6.000m² de área construída. Junto a esta mudança de localização, simultaneamente ocorreu o retorno da família Cini, que reassumiu a administração para desbravar essa nova empreitada.

Este espaço, locado para ser a sede da empresa, sofreu algumas reformas para poder acomodar todos os seus departamentos, recebendo espaços maiores e com mais tecnologia para o trabalho. Com esta estrutura maior, a indústria teve seus equipamentos distribuídos de forma mais ordenada, estrutura de armazenagem de matérias-primas e produtos acabados. A área de expedição também contou com revoluções que ajudaram na execução de uma logística que pode ser considerada perfeita.

A sucessão na empresa, já no comando de Orlando Cini, deu-se de modo simples e de acordo com os interesses profissionais de cada descendente e herdeiros da família Cini.

No dia 17 de março de 2003, aos 84 anos de idade faleceu o industrial Orlando Cini, um dos nomes mais importantes do ramo de gasosas do Paraná e ex-presidente da Hugo Cini.

Em março de 2004, a indústria comemorou o ano de seu centenário, anunciando ao mercado, após mais de dois anos de estudos, que passaria a ser uma empresa de bebidas não alcoólicas, oferecendo aos seus fiéis consumidores, os então recém lançados chá mate e a bebidas mistas de sucos de frutas, ambos prontos para beber.

Para que essas novas bebidas pudessem ser produzidas, foi adquirida uma nova linha de produção com maquinários extremamente inovadores e assepsia máxima, além de uma máquina sopradora italiana que, instalada junto à linha de produção de refrigerantes, permite o sopro ordenado e rápido das garrafas PET (polietileno tetra-ftálico), para ambas as linhas. Esta máquina foi determinante para a produção de mais de 35 milhões de litros de refrigerantes por ano, volume aproximado produzido em 2004.

Através de solicitações de mercado e grande aceitação do público consumidor da linha Chá Mate Cini, no final do ano de 2006 uma nova linha de produção foi instalada na indústria para produção deste produto na versão copo.



Em 2006, uma nova mudança ocorre, a indústria Cini Bebidas retorna as suas raízes, a cidade de São José dos Pinhais.

Com mercado focado no Paraná e em Santa Catarina, a Cini Bebidas conta, hoje, com aproximadamente duzentos funcionários internos, distribuídos na área industrial e administrativa.


2 comentários:

Anônimo disse...

ola tenho uma garrafa da cerveja preta aguia hugo cini fechada em boas condicoes de uso .tem ideia de quanto vale meu email
fernandopgpg@gmail.com

Anônimo disse...

Conheço a empresa Hugo Cini há mais de 60 anos e não sabia de iniciaram com o fabríco de cervejas.Um fato marcou muito na minha vida(ref a bebida). Em 1954 eu tomava regularmente a laranjada wimi e havia uma promoção na tampinha debaixo da cortiça havia o des de uma laranja-se tiverssa uma laranja, ganhava uma e mais-36 garrafas ganhei. Consumo produtos Hugo Cici até hoje. Parabéns pra esta empresa familiar (4a. geração já ?)